terça-feira, 16 de abril de 2024
Autopiedade
terça-feira, 26 de março de 2024
A desilusão de uma poetisa
Melancolicamente começo com pena
Esse verso sem rima
Essa minha parábola
Sem versículo pronto.
Um confronto comigo
Onde perco e peço
Por favor, não me deixe,
Demente e sozinha.
Minha chaga é profunda
E sepulta meu grito
Num abismo eterno
Calado e sem fúria.
A ajuda que espero
Não encontro na rua
Nem me bate à porta
A inspiração que eu quero.
Então por que acredito
No brilho dos olhos?
Se agora meu rosto é o pálido retrato,
De um solitário desgosto.
Por que ainda escrevo
Palavras rimadas?
Que só serão lidas por traças famintas,
Que nunca souberam de quem foram essas rimas.
Rimas perdidas
Em folhas sem linhas
Em páginas sem capas
Em livros sem letras
Porque o dom se acaba
No fundo de uma gaveta.
(2017)
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
Ao Meu avô
Seu nome era Vicente...
Mas poucos sabiam seu nome de batismo, aos estranhos e chegados era Nico, um senhor singelo, magrelo e calmo, não era capaz de arrumar uma briga, agredir uma mosca, seu único crime era beber demais, sorrir demais e cair de vez em quando. Me lembro bem do seus trejeitos, tomava café com o dedo mindinho levantado, andava vagaroso como se a vida acontecesse bem mais lenta em sua realidade pararela (Metaverso do vô Nico).
Carregava no bolso da camisa um pente pequeno, tinha o
hábito diário de pentear os ralos cabelos antes de cada refeição, hábito esse
que virou brincadeira das netas... Eu e minha irmã na época fazíamos penteados
incríveis na cabeça do vovô, seu cabelo oleoso permitia muitas esculturas
capilares, estilo gótico e contemporâneo, ele permitia, ria e depois arrumava
como de costume. Sentava lentamente no sofá, pois nos últimos anos sua noção
espacial já estava bem limitada pela idade e pela “marvada pinga”.
Seu radinho de pilha ( Já usado
na energia) tocava as modas de viola da sua infância, aos domingos ele não
perdia um programa da Inesita Barroso, saudoso, frequentava vez em quando o conhecido
forró do Áureo Preto, minha vó desaprovava, era ela que tocava a casa, ele não
dirigia, não trabalhava, era parceiro de pescaria, mas só ela pescava, ele
bebia...
Seu cheiro era um misto de cana
de açúcar alcoólica, sabonete e fumo. Quando eu chegava, menina, criança
pequena ele já me cumprimentava: olha a Janaia “Corta Páia”, esse meu apelido (que
só ele usava) era justamente uma homenagem pelo o hábito que ele conservava: o
de fazer seus cigarros de palha e fumar contemplando o universo.
Sempre vou lembrar dos seus dedos
amarelos pelo tabaco, do seu canivete pica fumo que com o tempo foi aposentado
e se tornou herança que mantenho guardado, a idade tirou a agilidade das suas
mãos para cortar o fumo de corda, mas ainda assim ele cultivou o Juriti terapêutico,
meditativo até seus últimos dias.
Vô Nico, único em sua
tranquilidade, italiano por hereditariedade, partiu como um sopro, mas ao contrário
dos outros, não partiu em paz, ele SEMPRE viveu em paz, na serenidade do seu próprio
ócio, deixou saudade em seus próximos, deixou sorrisos até nos distantes.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2022
Filosofando sobre a caixa de papelão
Outro dia me peguei observando uma caixa de papelão esquecida no canto da sala. Dessas comuns, que chegam com encomendas e, quase sempre descartamos sem remorso.
Mas naquele dia ela não era só uma caixa, fiquei pensando filosoficamente
sobre ela, seu valor e função:
Para
quem vende
A
caixa é indispensável. Protege, guarda, viabiliza. Sem ela, o produto não chega
inteiro, não chega direito, não chega. Ela tem custo, tem função, tem
importância estratégica. É parte do negócio.
Para quem compra
A caixa é um parque de diversões, em segundos se torna arranhador, esconderijo, território, palco de pequenas batalhas imaginárias. Não há cálculo, nem
utilidade prática. Há prazer, afeto e brincadeira.
E
foi então que me veio a pergunta inevitável: afinal, para quem a caixa é mais
importante?
Talvez a resposta não esteja na caixa, mas no olhar que a
atravessa.
Porque
o valor nunca esteve no objeto, mas no ponto de vista.
E talvez seja assim com quase tudo na vida.
Há quem veja custo, quem veja descarte, quem veja oportunidade e
quem veja encanto.
A caixa continua sendo só uma caixa.
E eu continuo sendo apenas uma pessoa pensando aleatoriedades sobre
objetos inanimados na minha sala.
sábado, 5 de outubro de 2019
Dormideiras no jardim
Eu devia ter uns quatro, cinco anos, aquela fase de puro encantamento e curiosidade, e foi minha mãe quem me apresentou. Não houve suspense, nem trilha sonora, só um simples:
Encosta aqui.
Encostei.
E ela se fechou.
Uauuu… seria magia? Não sei. Mas repeti aquilo várias vezes, com um prazer quase insaciável.
Para minha sorte, o bairro perto da casa da minha avó paterna era praticamente um parque temático da dormideira. Canteiros cheios de mato, mato mesmo, daquele que cresce sem pedir licença, ocupavam o espaço que, anos depois, viraria o Passeiódromo de Ibitinga. Mas, na minha infância, aquilo era território selvagem, um verdadeiro laboratório a céu aberto, onde eu testava meu recém-descoberto “poder” de fechar plantas com o dedo.
Com o tempo, como acontece com quase tudo que é mágico na infância, essa fase passou… e as dormideiras também. A vida seguiu, eu cresci, me casei.
E, em um ano de pouco dinheiro e muita boa vontade, pedi ao meu marido um canteiro de Natal, não um presente embrulhado, mas um pedaço de terra organizado. Ele, que claramente entendeu o nível de importância daquele pedido, projetou e construiu, com as próprias mãos, o tal do canteiro no corredor de casa.
Plantamos flores, temperos… e ele floresceu lindamente. Um verdadeiro jardim de Natal.
Algum tempo depois, em uma feliz coincidência, acompanhei minha mãe em uma sessão de fotos em um bairro novo da cidade. Enquanto esperava, tentando espantar o tédio, comecei a explorar o terreno ao redor.
E lá estavam elas.
Aos montes. Espalhadas, livres, absolutamente despreocupadas com o fato de serem raras na minha memória.
As dormideiras.
Confesso, fiquei extasiada. Não era só uma planta, era um reencontro. Daqueles momentos em que o tempo dá um nó e te congela por alguns segundos. Fiquei em dúvida, não sou expert em plantas e já fazia décadas que eu não via uma dormideira. Então toquei.
E sim… elas fecharam.
Quase pulei de alegria, mas me contive pela vergonha de ter pessoas ao redor. Voltei para casa já elaborando um plano, que compartilhei com meu marido.
E se a gente trouxesse algumas?
Ele topou. Foi nesse momento que tive certeza de que tinha me casado com a pessoa certa.
Numa tarde qualquer, munidos de uma enxadinha e uma coragem questionável, fomos lá. Não sei se “coletar” seria o termo mais adequado. Talvez “resgatar”. Talvez “raptar”. Talvez “adoção não autorizada”.
Trouxemos uma moita.
Não sabíamos se daria certo, se elas iam aceitar o novo lar, se sobreviveriam fora do seu habitat selvagem. Mas plantamos assim mesmo, no nosso canteiro de Natal, entre flores comportadas e temperos civilizados.
E elas ficaram.
Não só ficaram como prosperaram. Criaram raízes. Cresceram viçosas, confiantes, como se sempre tivessem pertencido ali.
E então veio a última surpresa.
Um dia, notei algo diferente, pequenas esferas rosadas, delicadas, surgindo entre o verde. Descobri que a dormideira também floresce. E que flores!
Na verdade, pompons da natureza. Pequenos fogos de artifício silenciosos, que explodem em beleza mesmo em plena luz do dia. Não fazem barulho, não pedem aplauso, mas encantam do mesmo jeito.
E, ainda hoje, mesmo com pressa, me pego passando pelo corredor e tocando em suas folhinhas. Elas se fecham com a mesma meiguice de sempre.
E eu sorrio, com a mesma sensação de anos atrás:
o mundo, de vez em quando, ainda responde ao toque.
sexta-feira, 10 de maio de 2019
Mãe Costureira
Só quem tem mãe costureira,
sabe o que é brincar entre as pernas da mãe e as pernas da máquina,
Só quem tem mãe costureira,
Sabe como é ter o sono embalado pelo som do motor daquela Singer antiga,
Só quem tem mãe costureira,
Sabe o que é levar bronca por desregular o ponto e rebentar a linha
Sumir com a tesoura, derrubar as bobinas...
Só quem tem mãe costureira
Sabe como é ter as roupas mais únicas da escola.
Os vestidos mais lindos da igreja.
Talvez eu seja uma filha de costureira
Não é vergonha
Ser trabalhadeira
Mãe que é mãe, é costureira nata
Ela completa o que nos falta.
Sempre inquieta
Costura tudo com dedicação,
tecido chique
ou um fato triste do coração
Uni retalhos,
E os pedaços falhos
Ela não joga não.
Mãe que costura
é a alma pura que nos remenda
e quem nos cura de coração.
domingo, 24 de março de 2019
Vaidade
Nunca fui vaidosa
Minha mãe orgulhosa, recrimina
Ela faz o tipo perua convicta
Elegante
Distinta
Bem vestida
Quando me vê
Descabida, descabelada, quase infarta
Mas eu sou dessas...
Um banho, Um jeans
Um batom? (às vezes)
Os cabelos? ( só penteio)
Às vezes só amasso
Maquiagem? Raramente
Salto alto? Quase nunca!
Prefiro o tempo durante um encontro
Não perco muito tempo antes dele
Eu não ligo para a estética
A beleza que encanta os olhos é perecível,
A beleza que encanta os poros é para sempre!
Sobre os Besouros
Como é possível com uma aerodinâmica tão inadequada seres como esses poderem voar?
Voam mal, é verdade! São como jovens pilotos, inseguros, a inabilidade é notada em cada movimento.
Não há pouso suave ou voo leve como os pássaros, é sempre uma manobra perigosa e quando menos se espera o encontro com a parede.
O que mais odeio nessa história é que quando aparece um besouro, ele nunca vem sozinho, é praticamente uma confraternização “besourística” em minha varanda eles voam, se trombam, enroscam em nossos cabelos, grudam em nossas roupas e eu fico me perguntando, Porquê Deus decidiu dar asas justamente aos besouros?
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Em defesa do Avental
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
Dose Poética nº 22
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Ao meu pai
domingo, 20 de janeiro de 2019
A Face do Fracasso
sábado, 31 de março de 2018
Dose poética n° 21
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Sobre as emoções
quinta-feira, 18 de maio de 2017
Existência Transitória {faixa poema}
Invisível movimento... Sou o vento







