terça-feira, 26 de março de 2024

A desilusão de uma poetisa

Melancolicamente começo com pena
Esse verso sem rima
Essa minha parábola
Sem versículo pronto.

Um confronto comigo
Onde perco e peço
Por favor, não me deixe,
Demente e sozinha.

Minha chaga é profunda
E sepulta meu grito
Num abismo eterno
Calado e sem fúria.

A ajuda que espero
Não encontro na rua
Nem me bate à porta
A inspiração que eu quero.

Então por que acredito
No brilho dos olhos?
Se agora meu rosto é o pálido retrato,
De um solitário desgosto.

Por que ainda escrevo
Palavras rimadas?
Que só serão lidas por traças famintas, 
Que nunca souberam de quem foram essas rimas.

Rimas perdidas
Em folhas sem linhas
Em páginas sem capas
Em livros sem letras
Porque o dom se acaba
No fundo de uma gaveta.

(2017)

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