domingo, 10 de maio de 2026

Amor de Mãe


Do teu ventre tão materno eu nasci

Do teu amor tão sincero eu surgi

Para te chamar de mãe

E no teu colo eu adormeço

No meu coração o começo

Do meu amor por ti

Nos teus olhos a verdade

No teu peito a saudade de mim

Que é sem fim

Quando o tempo e a distância são inimigos.

No perigo é segurança

Na dor é o conforto

Que a tristeza e meu corpo

Só suportam ao teu lado

O teu colo é o consolo

Para meu choro e meu cansaço

É nos teus braços que alcanço

O carinho que procuro

Num mundo que não tem

Nem teu zelo, nem teus cuidados.

 E mesmo que eu tenha crescido

E perdido um pouco de ti

Quero que continue tão terna

Materna zelando por mim

E se um dia chegar a me faltar

Sua amorosa presença aqui

Acredito que seu amor ainda estará

A olhar e a cuidar de mim.

domingo, 19 de abril de 2026

Âncora, remo e vela: A arte de navegar a dois

 

Nem todo amor te leva adiante.
Alguns te ancoram. Outros te movem. Alguns só existem quando o vento sopra a favor. E talvez o dilema nunca tenha sido sobre quem segura a sua mão, mas sobre para onde essa mão te leva.

Tem gente que ama como âncora. Firme. Presente. Pesado. É aquele amor que te diz “fica, aqui é seguro.” E você fica. E realmente é seguro. Seguro demais. A âncora te mantém no eixo, te impede de se perder, te protege das tempestades que você ainda nem sabe enfrentar. Mas, em silêncio, também te impede de partir. E um dia você percebe: não era estabilidade… era imobilidade com nome bonito.

Tem também o amor remo. Difícil de entender no começo. Exige esforço, ritmo, sintonia. Não é automático. Não é leve. Mas quando os dois aprendem o compasso… ah, quando aprendem… é movimento puro. O remo não te prende, mas também não te leva sozinho. Ele pede presença, intenção, constância. Cansa, às vezes. Desgasta, em outras. Mas é honesto. Porque cada avanço foi construído a dois.

E existe o amor vela. Esse… encanta. Leve, bonito, quase poético demais pra ser real. Quando o vento sopra a favor, é liberdade em estado bruto. Vocês voam. Sem esforço, sem peso, sem resistência. Tudo flui. Mas a vela depende. Depende do vento, do tempo, do acaso. E quando o vento cessa, fica o silêncio inquieto de quem não aprendeu a remar.

No fim, talvez a pergunta não seja que tipo de parceiro você tem, mas que tipo de travessia você quer viver.

Porque há quem prefira nunca sair do lugar, há quem escolha remar mesmo cansado, e há quem espere o vento mudar.

E há, raros, os que aprendem a ser tudo: âncora quando é preciso parar, remo quando é hora de construir caminho, vela quando a vida sopra a favor.

Esses não te prendem, não te arrastam, não te abandonam à sorte.

Eles navegam com você.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Relato de pós-morte


Os cupins de minha mente

Devoraram meus neurônios de madeira

E minha pele resistente

Se desfez como poeira

E sob o chão me enterrou.



Quando de mármore eram meus ossos

Pensei que eu resistiria

Mas o tempo eu não suporto

Pois ele corrói como ácido

Meus ossos que eram de ferro

Meus músculos que eram de aço.


Eu tentei manter-me em pé

Sobre a sola que se esvaia no asfalto

Mas a fé que era meu único calço

Fraca também pereceu

E assim fez perecer o que eu era.


O sangue meu que antes corria

Aos poucos secou e dessecou minha face

Minha carne antes sadia

Dissolveu-se lentamente

Enquanto a mente também apodrecia.


Hoje me vejo...

Sou adubo da terra

Por isso não morro

Nem me extingo de tudo

Eu vivo para sempre

No grão na semente

Na terra e no caule.


Se vale a vida

Morrer também vale

Alimento o homem e os meus descendentes

Serei para sempre nessa minha morte

O que eu nunca fui na minha vida inteira.

domingo, 1 de março de 2026

Spoiler do meu futuro livro

É muito fácil vender livros de autoajuda, mas é difícil simplesmente encantar pelas palavras;

A poesia, para muitos, ainda é vista com certo preconceito. A própria metodologia de ensino muitas vezes nos obriga a estudá-la, mas não a compreendê-la em sua essência. Somos levados a focar na anatomia dos versos, na harmonia, na musicalidade das palavras, nos formatos de tercetos, quartetos e estrofes lineares — tantos protocolos que, aos poucos, acabam tornando a poesia fria, pálida e cansativa.

Eu tive sorte. Minha primeira experiência com poesia, ainda nos anos iniciais da escola, foi muito positiva. Minha professora, cujo nome nem me lembro mais, fez com que eu me apaixonasse pelas palavras. A harmonia, a sonoridade, as rimas — tudo era quase magia para os ouvidos. E, quando eu ainda mal sabia construir frases, já pensava: “Quando crescer, vou ser poetisa”.

Mas não era preciso crescer...

Escrevo poesias desde pequena. Meu primeiro “livro” publiquei ainda jovem, aos nove anos — uma edição exclusiva, de volume único. Ainda me lembro... O livreto tinha apenas dez folhas. Nele, escrevi manualmente cada poesia com uma caneta de cor diferente, ilustrei todas as páginas caprichosamente, grampeei as folhas e fiz uma capa tão colorida quanto o restante do livro. Minha mãe não sabe, mas, para “editar” essa obra literária, tive que arrancar algumas folhas do meu caderno de geografia.

Hoje não me lembro das poesias que escrevi naquela época, mas me recordo de uma única estrofe de uma das minhas primeiras: O Peixe e o Conde. Era mais ou menos assim...

O conde olha para o mar e se pergunta:
— Peixe, onde você está?
No fundo do mar ou embaixo da ponte?
O conde espera,
mas o peixe não fala.
Ele só nada e nunca responde.

Não me lembro do resto... Mas essa foi a primeira poesia que fiz. Hoje ela não faz muito sentido, mas, sempre que lembro, tenho vontade de rir de mim mesma.

Esperei por muito tempo o momento de explorar minha maturidade poética e, enfim, escrever um livro. Mas talvez essa plenitude que idealizo nunca chegue. Porque as nuances de quem é apaixonada pelas palavras sempre estiveram comigo: no discurso improvisado, na redação necessária, na legenda despretensiosa de Instagram.

Escrever, para mim, é movimento. É um processo contínuo de aprimoramento. E esperar pela perfeição… talvez não passe de um refinamento da vaidade que, vez ou outra, ainda insiste em me acompanhar.


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...