quinta-feira, 2 de abril de 2026

Relato de pós-morte


Os cupins de minha mente

Devoraram meus neurônios de madeira

E minha pele resistente

Se desfez como poeira

E sob o chão me enterrou.



Quando de mármore eram meus ossos

Pensei que eu resistiria

Mas o tempo eu não suporto

Pois ele corrói como ácido

Meus ossos que eram de ferro

Meus músculos que eram de aço.


Eu tentei manter-me em pé

Sobre a sola que se esvaia no asfalto

Mas a fé que era meu único calço

Fraca também pereceu

E assim fez perecer o que eu era.


O sangue meu que antes corria

Aos poucos secou e dessecou minha face

Minha carne antes sadia

Dissolveu-se lentamente

Enquanto a mente também apodrecia.


Hoje me vejo...

Sou adubo da terra

Por isso não morro

Nem me extingo de tudo

Eu vivo para sempre

No grão na semente

Na terra e no caule.


Se vale a vida

Morrer também vale

Alimento o homem e os meus descendentes

Serei para sempre nessa minha morte

O que eu nunca fui na minha vida inteira.

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