domingo, 19 de abril de 2026

Âncora, remo e vela: A arte de navegar a dois

 

Nem todo amor te leva adiante.
Alguns te ancoram. Outros te movem. Alguns só existem quando o vento sopra a favor. E talvez o dilema nunca tenha sido sobre quem segura a sua mão, mas sobre para onde essa mão te leva.

Tem gente que ama como âncora. Firme. Presente. Pesado. É aquele amor que te diz “fica, aqui é seguro.” E você fica. E realmente é seguro. Seguro demais. A âncora te mantém no eixo, te impede de se perder, te protege das tempestades que você ainda nem sabe enfrentar. Mas, em silêncio, também te impede de partir. E um dia você percebe: não era estabilidade… era imobilidade com nome bonito.

Tem também o amor remo. Difícil de entender no começo. Exige esforço, ritmo, sintonia. Não é automático. Não é leve. Mas quando os dois aprendem o compasso… ah, quando aprendem… é movimento puro. O remo não te prende, mas também não te leva sozinho. Ele pede presença, intenção, constância. Cansa, às vezes. Desgasta, em outras. Mas é honesto. Porque cada avanço foi construído a dois.

E existe o amor vela. Esse… encanta. Leve, bonito, quase poético demais pra ser real. Quando o vento sopra a favor, é liberdade em estado bruto. Vocês voam. Sem esforço, sem peso, sem resistência. Tudo flui. Mas a vela depende. Depende do vento, do tempo, do acaso. E quando o vento cessa, fica o silêncio inquieto de quem não aprendeu a remar.

No fim, talvez a pergunta não seja que tipo de parceiro você tem, mas que tipo de travessia você quer viver.

Porque há quem prefira nunca sair do lugar, há quem escolha remar mesmo cansado, e há quem espere o vento mudar.

E há, raros, os que aprendem a ser tudo: âncora quando é preciso parar, remo quando é hora de construir caminho, vela quando a vida sopra a favor.

Esses não te prendem, não te arrastam, não te abandonam à sorte.

Eles navegam com você.

 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Relato de pós-morte


Os cupins de minha mente

Devoraram meus neurônios de madeira

E minha pele resistente

Se desfez como poeira

E sob o chão me enterrou.



Quando de mármore eram meus ossos

Pensei que eu resistiria

Mas o tempo eu não suporto

Pois ele corrói como ácido

Meus ossos que eram de ferro

Meus músculos que eram de aço.


Eu tentei manter-me em pé

Sobre a sola que se esvaia no asfalto

Mas a fé que era meu único calço

Fraca também pereceu

E assim fez perecer o que eu era.


O sangue meu que antes corria

Aos poucos secou e dessecou minha face

Minha carne antes sadia

Dissolveu-se lentamente

Enquanto a mente também apodrecia.


Hoje me vejo...

Sou adubo da terra

Por isso não morro

Nem me extingo de tudo

Eu vivo para sempre

No grão na semente

Na terra e no caule.


Se vale a vida

Morrer também vale

Alimento o homem e os meus descendentes

Serei para sempre nessa minha morte

O que eu nunca fui na minha vida inteira.

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