sábado, 5 de outubro de 2019

Dormideiras no jardim

Lembro como se fosse um rito de iniciação botânica: meu primeiro encontro com a tal da plantinha dormideira, para alguns, Mimosa pudica; para outros, dorme-dorme, maria-fecha-a-porta, não-me-toques… enfim.

Eu devia ter uns quatro, cinco anos, aquela fase de puro encantamento e curiosidade, e foi minha mãe quem me apresentou. Não houve suspense, nem trilha sonora, só um simples:
Encosta aqui.

Encostei.

E ela se fechou.

Uauuu… seria magia? Não sei. Mas repeti aquilo várias vezes, com um prazer quase insaciável.


Para minha sorte, o bairro perto da casa da minha avó paterna era praticamente um parque temático da dormideira. Canteiros cheios de mato, mato mesmo, daquele que cresce sem pedir licença, ocupavam o espaço que, anos depois, viraria o Passeiódromo de Ibitinga. Mas, na minha infância, aquilo era território selvagem, um verdadeiro laboratório a céu aberto, onde eu testava meu recém-descoberto “poder” de fechar plantas com o dedo.

Com o tempo, como acontece com quase tudo que é mágico na infância, essa fase passou… e as dormideiras também. A vida seguiu, eu cresci, me casei.

E, em um ano de pouco dinheiro e muita boa vontade, pedi ao meu marido um canteiro de Natal, não um presente embrulhado, mas um pedaço de terra organizado. Ele, que claramente entendeu o nível de importância daquele pedido, projetou e construiu, com as próprias mãos, o tal do canteiro no corredor de casa.

Plantamos flores, temperos… e ele floresceu lindamente. Um verdadeiro jardim de Natal.

Algum tempo depois, em uma feliz coincidência, acompanhei minha mãe em uma sessão de fotos em um bairro novo da cidade. Enquanto esperava, tentando espantar o tédio, comecei a explorar o terreno ao redor.

E lá estavam elas.
Aos montes. Espalhadas, livres, absolutamente despreocupadas com o fato de serem raras na minha memória.

As dormideiras.

Confesso, fiquei extasiada. Não era só uma planta, era um reencontro. Daqueles momentos em que o tempo dá um nó e te congela por alguns segundos. Fiquei em dúvida, não sou expert em plantas e já fazia décadas que eu não via uma dormideira. Então toquei.

E sim… elas fecharam.

Quase pulei de alegria, mas me contive pela vergonha de ter pessoas ao redor. Voltei para casa já elaborando um plano, que compartilhei com meu marido.

E se a gente trouxesse algumas?

Ele topou. Foi nesse momento que tive certeza de que tinha me casado com a pessoa certa.

Numa tarde qualquer, munidos de uma enxadinha e uma coragem questionável, fomos lá. Não sei se “coletar” seria o termo mais adequado. Talvez “resgatar”. Talvez “raptar”. Talvez “adoção não autorizada”.

Trouxemos uma moita.

Não sabíamos se daria certo, se elas iam aceitar o novo lar, se sobreviveriam fora do seu habitat selvagem. Mas plantamos assim mesmo, no nosso canteiro de Natal, entre flores comportadas e temperos civilizados.

E elas ficaram.

Não só ficaram como prosperaram. Criaram raízes. Cresceram viçosas, confiantes, como se sempre tivessem pertencido ali.

E então veio a última surpresa.

Um dia, notei algo diferente, pequenas esferas rosadas, delicadas, surgindo entre o verde. Descobri que a dormideira também floresce. E que flores!

Na verdade, pompons da natureza. Pequenos fogos de artifício silenciosos, que explodem em beleza mesmo em plena luz do dia. Não fazem barulho, não pedem aplauso, mas encantam do mesmo jeito.

E, ainda hoje, mesmo com pressa, me pego passando pelo corredor e tocando em suas folhinhas. Elas se fecham com a mesma meiguice de sempre.

E eu sorrio, com a mesma sensação de anos atrás:
o mundo, de vez em quando, ainda responde ao toque.

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